J. S. Bach (1685-1750) Parar a música

Chaconne da Partita nš 2 em ré menor para violino solo, BWV 1004

No início do verão de 1720, Johann Sebastian Bach viajou, na condição de mestre de capela de Anhalt-Cöthen, para Carlsbad em companhia do príncipe Leopold. Lá permaneceram durante três meses e, no retorno a casa, o compositor soube que sua primeira mulher, Maria Barbara, havia morrido e já tinha sido enterrada. Abalado pela dor da perda da mulher que lhe dera sete filhos, Bach encerrou a Partita nš 2 em ré menor para violino solo BWV 1004 com a emocionada e gigantesca Chacona que ouviremos hoje. À primeira vista desproporcional em relação aos movimentos anteriores, trata-se, segundo a musicóloga alemã Helga Thoene, da Universidade de Düsseldorf, de uma elegia ou um réquiem instrumental para violino solo em memória de Maria Barbara, com uma série de alusões cifradas a corais de suas cantatas – corais cuja letra fala o tempo todo de morte, da passagem da vida terrena para a vida eterna.

A tese faz sentido, dada a grandiosidade desmesurada da Chacona. Bach usou um material musical antigo de 120 anos, da passagem do Renascimento para o barroco quando escreveu um baixo baseado num tetracorde descendente de ré menor (ré-dó-si bemol-lá). A Chacona compõe um gigantesco painel de variações a partir de um tema de quatro compassos. Cada uma das variações transforma o tema; elas surgem aos pares, sempre em torno das tonalidades Ré Maior-ré menor-Ré Maior. Usam e abusam dos chamados estilos francês e italiano justapostos numa variedade quase infinita de diminuições, síncopes, ritmos pontuados e riquíssima ornamentação. Um formidável triunfo daquele que Carpeaux chamava de “o deus da música”.

 

João Marcos Coelho.

Esta obra foi interpretada por Joshua Bell em Porto Alegre (03 de Julho) e São Paulo (07, 08 e 15 de Julho).