| Pela primeira vez, o público
brasileiro está tendo a chance de assistir a uma performance
de um quarteto de cordas que pratica com extremo rigor e talento
a chamada música historicamente informada. O que isso significa
? Tentar reproduzir as sonoridades e o modo de tocar vigentes no
momento em que as obras foram escritas e interpretadas pela primeira
vez utilizando instrumentos de época ?
Os músicos adeptos da interpretação autêntica
sabem que se trata, claro, de um ideal, e não de algo que
se possa atingir com 100% de certeza. O fascínio que a música
historicamente informada exerce sobre músicos, críticos
e público em geral advém da sensação
de estarmos ouvindo estas obras de novo pela primeira vez.
Foram as necessidades de expressão artística dos compositores
que motivaram as alterações técnicas dos instrumentos
ao longo do tempo. Isso é nítido particularmente nos
instrumentos de corda do período clássico, onde a
tensão nas cordas de tripa era muito menor, o cavalete era
mais baixo e a nota "lá" de referência era
de 415 Hz. Assim, a sonoridade era muito mais doce e redonda, mas,
em compensação, muito menos potente.
A progressiva hegemonia das orquestras sinfônicas cada vez
mais numerosas exigiu a construção de salas de concerto
mais amplas – e o resultado, quanto aos instrumentos, foi
a busca de sons mais penetrantes e agressivos. Por isso, o "lá"
de referência foi se elevando paulatinamente, até chegar
aos 440 Hz atuais; as cordas de tripa foram descartadas em favor
das cordas de aço, muito mais resistentes. Assim, ganhou-se
em agressividade e volume sonoro, mas perdeu-se em qualidade e profundidade.
No caso das cordas, há ainda a questão do arco. Inicialmente
abaulado para fora, o arco favorecia as articulações
da música barroca, enquanto o arco moderno, reto, favorece
o "cantabile", a linha cantada, um dos pressupostos básicos
da estética romântica no século 19.
Assim, quando se assiste a um concerto de música historicamente
informada, como estes do Quarteto Festetics, tem-se a sensação
de uma "viagem no tempo" até o século 18.
Os quatro integrantes do Festetics vão utilizar, nas Noites
Especiais BankBoston, instrumentos montados de modo igual ao da
época de Haydn, Beethoven e Schubert, incluindo o arco barroco
abaulado.
Não se trata de uma atitude museológica ou mera curiosidade,
entretanto. Os instrumentos e os arcos barrocos facilitam mesmo
a técnica de execução adequada aos princípios
estilísticos desses grandes compositores.
Josef Haydn
Quarteto opus 54, no. 1 em sol maior Hob. III: 58
Quarteto opus 74 nº 3 em sol menor Hob. III: 74 – O Cavaleiro
Haydn
Quarteto opus 76 nº 2 em ré menor Hob. III: 76 –
Quintas
Quarteto opus 64 nº 5 em ré maior Hob. III: 63 –
A Cotovia
Quarteto opus 54 nº 1 em Sol Maior Hob. III:58
- Allegro con brio
- Allegretto
- Menuetto (Allegretto)
- Presto
Publicado em 1789, em Paris, como parte de um pacote de três
enfeixados no opus 54, ele foi composto junto com outros cinco (os
três finais compõem o opus 55). O conjunto leva o apelido
de "Quartetos Tost", nome do segundo violino da orquestra
Esterházy, Johann Tost, que estava de partida para Paris
e foi encarregado por Haydn de levar os manuscritos para serem lá
editados. Talvez por isso, as partes de violino, numa espécie
de dedicatória musical camuflada, sejam tão atraentes
e virtuosísticas. Estas passagens não estão
mais soltas ou são efeitos simples – como nos quartetos
anteriores --, mas integram-se ao discurso do quarteto, cumprem
uma função expressiva específica.
Quarteto opus 64 nº 5 em Ré
Maior Hob. III:63
– "A Cotovia"
- Allegro moderato
- Adagio cantabile
- Menuetto (Allegretto)
- Vivace
Agora Haydn não precisa mais ocultar o nome
do dedicatário, e o escreve de modo claro: os seis quartetos
do opus 64 homenageiam publicamente Johann Tost (ele devia gostar
muito de seu violinista em Esterházy). Escritos em 1790,
foram publicados em Paris, no ano seguinte, quando Haydn já
desfrutava dos prazeres e da experiência de sua primeira viagem
"internacional": uma longa e maravilhosa temporada em
Londres, onde pôde sentir pela primeira vez a recepção
de um público de concerto, fato que modificaria bastante
suas criações posteriores. No conjunto, eles ampliam
o horizonte musical, encorpando de tal maneira os minuetos que já
quase podem ser chamados de "scherzi", tamanha a vivacidade.
Além disso, Haydn multiplica seus mergulhos na música
ambiente. Assim, por exemplo, se no no. 1 do opus 64 o presto é
de inspiração francamente popular, os minuetos dos
no.s 3 e 6 remetem às "laendler" (danças
vienenses).
O quarteto leva o apelido por causa da evocação do
canto e/ou do vôo da cotovia no Allegretto inicial.
Quarteto opus 74 nº 3 em sol menor
Hob. III: 74
– "O Cavaleiro"
- Allegro
- Largo assai
- Menuetto (Allegretto)
- Allegro con brio
O apelido, que não foi dado por Haydn, mas
por um editor, deve-se a um curioso efeito de cavalgada no "Allegro
con brio" final. Mas não é aí que reside
o maior interesse deste que é um dos mais conhecidos quartetos
entre os 68. Composto num grupo de seis em 1792/93 e entre as duas
temporadas londrinas, eles se distribuem em pacotes de três,
nos opus 71 e 74. Haydn dedicou-os ao conde Anton Georg Apponyi,
mas estava mesmo pensando no dublê de empresário e
violinista inglês Salomon, que possuía um quarteto
de cordas muito celebrado em Londres.
Por isso, já conhecedor do público inglês, ele
modifica a abertura dos quartetos. Assim, neste no. 3, uma introdução
lenta em uníssono de oito compassos parece chamar a atenção
do público para a obra musical que está prestes a
ser interpretada.
Além disso, quem conhece este quarteto poderá ter
algumas surpresas com a execução do Festetics, já
que nestas partituras Haydn mostrou-se muito mais rigoroso com as
especificações técnicas, dinâmicas e
fraseológicas (estas partituras contêm instruções
muito mais precisas do que as dos quartetos iniciais). Como os Festetics
vêm realizando um notável trabalho de ourivesaria musical
para chegar ao texto haydniano original, resta conferir.
Quarteto opus 76 no. 2 em ré menor
Hob. III:76
- "Das Quintas"
- Allegro
- Andante o più tosto allegretto
- Menuetto (Allegro ma non troppo)
- Vivace assai
Outro quarteto muito conhecido, que recebeu o apelido
"Das Quintas" por causa dos dois intervalos de quintas
descendentes que são ouvidos logo no início e permeiam
toda a obra, desde o material temático do Allegro inicial
até o Vivace assai.
Os seis quartetos do opus 76 foram compostos em 1796/97 e dedicados
ao conde Erdödy. Constituem a última série escrita
por Haydn (a derradeira, opus 77, ficou em dois quartetos apenas).
Nestas seis obras-primas, Haydn incorpora as novidades assimiladas
nas temporadas inglesas, mas retorna, no conjunto, ao intimismo
dos quartetos do opus 20, compostos em 1772. Fournier afirma que
o opus 76 domina sem contestação toda a produção
do gênero no século 18.
Além do passeio das quintas no Allegro inicial, elas voltam
no "Andante o più tosto allegretto" e aparecem,
revertidas, no Menuetto; e no tema principal do Vivace assai o tema
principal, "alla ungarese", é de novo um intervalo
de quinta descendente.
Beethoven
Quarteto opus 18 no. 4 em dó menor
- Allegro ma non tanto
- Andante scherzoso quasi allegretto
- Menuetto: Allegretto
- Allegro - Prestissimo
Os seis quartetos do opus 18 de Beethoven, dedicados
ao príncipe Lobkowitz, são obra de um "aprendiz
de feiticeiro do classicismo", no dizer de Fournier. Em 1795,
com Haydn vivíssimo (pouco tempo antes lhe dera aulas de
música), o jovem Beethoven recebeu a encomenda de um quarteto
de cordas do conde Apponyi, aquele mesmo eternizado pela posteridade
pelos opus 71 e 74 de Haydn. Tentou, mas não se sentiu seguro
para atender à encomenda. Ensaiou com um trio, depois com
um quinteto e com uma transcrição para quarteto da
sonata para piano opus 14 nº 1.
Os seis foram escritos pouco depois, entre 1798 e 1800, e dedicados
a Lobkowitz. O quarteto no. 4, na verdade, foi o último em
data a ser posto no papel, e constitui uma espécie de súmula
da linguagem para quarteto vigente naquele momento, laboratório
onde Beethoven experimentou os usos e costumes do tempo, como o
destaque do primeiro violino todo o tempo e as melodias acompanhadas,
entre outros. André Boucorechliev fala, de modo um pouco
rude, em "recapitulação dos clichês então
em vigor". E Joseph Kerman indica que esta é uma das
partituras "menos sedutoras" do seu primeiro período
criativo. O próprio Beethoven, autocrítico ao extremo,
ficou inconformado com o entusiasmo de crítica e público
com relação à obra. "É lixo, lixo
adequado para este público de porcos!".
O compositor tinha lá seus motivos para ser tão ranzinza,
mas a visão de estudiosos contemporâneos fica prejudicada
porque eles encaram este quarteto em função de todo
o desenvolvimento de Beethoven no gênero – a mania de
se conceber encaminhamentos lineares, superações progressivas
em direção à perfeição, argumentações
teleológicas, enfim, pode atrapalhar o melhor da música,
que é simplesmente saboreá-la além das explicações
extramusicais. Scherzo, em italiano, quer dizer brincadeira. Que
tal aderir à provocação de Beethoven ao chamar
seu andante de scherzoso?
Franz Schubert
- Quarteto opus 29 em lá menor D. 804 – Rosamunde
- Allegro ma non troppo
- Andante
- Menuetto: Allegretto
- Allegro moderato
Contemporâneo exato de Beethoven, Schubert
concluiu o imponente conjunto de seus quinze quartetos quase que
ao mesmo que Beethoven terminou seu opus 135. Ao seu diário,
confessou que "minhas produções são fruto
de meus conhecimentos musicais e de minha dor". Pura verdade.
Apesar das gigantescas sombras criativas de Haydn, Mozart e Beethoven
no gênero, o percurso de Schubert é inesperadamente
pessoal. E algo profundamente entranhado nele – ainda menino,
foi primeiro violino de um quarteto ainda na escola.
Dos 15 quartetos (incluído o "Quartettsatz"), onze
foram compostos por um Schubert adolescente, até 1817, para
serem tocados em casa, na seguinte formação: os irmãos
Ferdinand e Ignaz nos violinos, Franz na viola e o pai no violoncelo.
Porque este último não era lá muito bom no
instrumento, o menino-compositor facilitava ao máximo as
partes de “cello”.
A obras posteriores são obras-primas acabadas, assim como,
aliás, o movimento de quarteto isolado, de 1820. São
apenas três, mas fabulosamente originais. No no. 14, ele retrabalha
a melodia da sua canção "A Morte e a Donzela",
tão popular que foi até utilizada como trilha de filme;
e neste no. 13, usa no Andante um tema de sua música de balé
para "Rosamunde" e, no Allegretto, toma de empréstimo
a melodia de um "lied" que compusera em 1819 sobre poema
de Schiller intitulado "Os Deuses da Grécia".
O quarteto foi composto em 1824 e estreado em março daquele
ano no Musikverein de Viena pelo quarteto que recebeu a dedicatória,
liderado por seu amigo Schuppanzigh. O sucesso foi tamanho que justificou
a publicação da partitura seis meses depois –
a única editada com Schubert vivo.
A característica mais marcante deste quarteto, assim como
do seguinte, é a intimidade tão própria do
"lied" – gênero no qual era mestre inconteste
– que Schubert transpõe para o universo do quarteto.
João Marcos Coelho
15
- 17 de outubro
Quarteto Festetics cordas
com instrumentos originais(Hungria)
István Kertèsz, violino
Erika Petöfi, violino
Peter Ligeti, viola
Rezsö Pertorini, violoncelo
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