Quarteto Festetics cordas com instrumentos originais(Hungria)
István Kertèsz, violino
Erika Petöfi, violino
Peter Ligeti, viola
Rezsö Pertorini, violoncelo


Pela primeira vez, o público brasileiro está tendo a chance de assistir a uma performance de um quarteto de cordas que pratica com extremo rigor e talento a chamada música historicamente informada. O que isso significa ? Tentar reproduzir as sonoridades e o modo de tocar vigentes no momento em que as obras foram escritas e interpretadas pela primeira vez utilizando instrumentos de época ?

Os músicos adeptos da interpretação autêntica sabem que se trata, claro, de um ideal, e não de algo que se possa atingir com 100% de certeza. O fascínio que a música historicamente informada exerce sobre músicos, críticos e público em geral advém da sensação de estarmos ouvindo estas obras de novo pela primeira vez.

Foram as necessidades de expressão artística dos compositores que motivaram as alterações técnicas dos instrumentos ao longo do tempo. Isso é nítido particularmente nos instrumentos de corda do período clássico, onde a tensão nas cordas de tripa era muito menor, o cavalete era mais baixo e a nota "lá" de referência era de 415 Hz. Assim, a sonoridade era muito mais doce e redonda, mas, em compensação, muito menos potente.

A progressiva hegemonia das orquestras sinfônicas cada vez mais numerosas exigiu a construção de salas de concerto mais amplas – e o resultado, quanto aos instrumentos, foi a busca de sons mais penetrantes e agressivos. Por isso, o "lá" de referência foi se elevando paulatinamente, até chegar aos 440 Hz atuais; as cordas de tripa foram descartadas em favor das cordas de aço, muito mais resistentes. Assim, ganhou-se em agressividade e volume sonoro, mas perdeu-se em qualidade e profundidade.

No caso das cordas, há ainda a questão do arco. Inicialmente abaulado para fora, o arco favorecia as articulações da música barroca, enquanto o arco moderno, reto, favorece o "cantabile", a linha cantada, um dos pressupostos básicos da estética romântica no século 19.

Assim, quando se assiste a um concerto de música historicamente informada, como estes do Quarteto Festetics, tem-se a sensação de uma "viagem no tempo" até o século 18. Os quatro integrantes do Festetics vão utilizar, nas Noites Especiais BankBoston, instrumentos montados de modo igual ao da época de Haydn, Beethoven e Schubert, incluindo o arco barroco abaulado.

Não se trata de uma atitude museológica ou mera curiosidade, entretanto. Os instrumentos e os arcos barrocos facilitam mesmo a técnica de execução adequada aos princípios estilísticos desses grandes compositores.

Josef Haydn
Quarteto opus 54, no. 1 em sol maior Hob. III: 58
Quarteto opus 74 nº 3 em sol menor Hob. III: 74 – O Cavaleiro

Haydn
Quarteto opus 76 nº 2 em ré menor Hob. III: 76 – Quintas
Quarteto opus 64 nº 5 em ré maior Hob. III: 63 – A Cotovia
Quarteto opus 54 nº 1 em Sol Maior Hob. III:58
- Allegro con brio
- Allegretto
- Menuetto (Allegretto)
- Presto

Publicado em 1789, em Paris, como parte de um pacote de três enfeixados no opus 54, ele foi composto junto com outros cinco (os três finais compõem o opus 55). O conjunto leva o apelido de "Quartetos Tost", nome do segundo violino da orquestra Esterházy, Johann Tost, que estava de partida para Paris e foi encarregado por Haydn de levar os manuscritos para serem lá editados. Talvez por isso, as partes de violino, numa espécie de dedicatória musical camuflada, sejam tão atraentes e virtuosísticas. Estas passagens não estão mais soltas ou são efeitos simples – como nos quartetos anteriores --, mas integram-se ao discurso do quarteto, cumprem uma função expressiva específica.

Quarteto opus 64 nº 5 em Ré Maior Hob. III:63
– "A Cotovia"
- Allegro moderato
- Adagio cantabile
- Menuetto (Allegretto)
- Vivace

Agora Haydn não precisa mais ocultar o nome do dedicatário, e o escreve de modo claro: os seis quartetos do opus 64 homenageiam publicamente Johann Tost (ele devia gostar muito de seu violinista em Esterházy). Escritos em 1790, foram publicados em Paris, no ano seguinte, quando Haydn já desfrutava dos prazeres e da experiência de sua primeira viagem "internacional": uma longa e maravilhosa temporada em Londres, onde pôde sentir pela primeira vez a recepção de um público de concerto, fato que modificaria bastante suas criações posteriores. No conjunto, eles ampliam o horizonte musical, encorpando de tal maneira os minuetos que já quase podem ser chamados de "scherzi", tamanha a vivacidade. Além disso, Haydn multiplica seus mergulhos na música ambiente. Assim, por exemplo, se no no. 1 do opus 64 o presto é de inspiração francamente popular, os minuetos dos no.s 3 e 6 remetem às "laendler" (danças vienenses).

O quarteto leva o apelido por causa da evocação do canto e/ou do vôo da cotovia no Allegretto inicial.

Quarteto opus 74 nº 3 em sol menor Hob. III: 74
– "O Cavaleiro"
- Allegro
- Largo assai
- Menuetto (Allegretto)
- Allegro con brio

O apelido, que não foi dado por Haydn, mas por um editor, deve-se a um curioso efeito de cavalgada no "Allegro con brio" final. Mas não é aí que reside o maior interesse deste que é um dos mais conhecidos quartetos entre os 68. Composto num grupo de seis em 1792/93 e entre as duas temporadas londrinas, eles se distribuem em pacotes de três, nos opus 71 e 74. Haydn dedicou-os ao conde Anton Georg Apponyi, mas estava mesmo pensando no dublê de empresário e violinista inglês Salomon, que possuía um quarteto de cordas muito celebrado em Londres.

Por isso, já conhecedor do público inglês, ele modifica a abertura dos quartetos. Assim, neste no. 3, uma introdução lenta em uníssono de oito compassos parece chamar a atenção do público para a obra musical que está prestes a ser interpretada.

Além disso, quem conhece este quarteto poderá ter algumas surpresas com a execução do Festetics, já que nestas partituras Haydn mostrou-se muito mais rigoroso com as especificações técnicas, dinâmicas e fraseológicas (estas partituras contêm instruções muito mais precisas do que as dos quartetos iniciais). Como os Festetics vêm realizando um notável trabalho de ourivesaria musical para chegar ao texto haydniano original, resta conferir.

Quarteto opus 76 no. 2 em ré menor Hob. III:76
- "Das Quintas"
- Allegro
- Andante o più tosto allegretto
- Menuetto (Allegro ma non troppo)
- Vivace assai

Outro quarteto muito conhecido, que recebeu o apelido "Das Quintas" por causa dos dois intervalos de quintas descendentes que são ouvidos logo no início e permeiam toda a obra, desde o material temático do Allegro inicial até o Vivace assai.

Os seis quartetos do opus 76 foram compostos em 1796/97 e dedicados ao conde Erdödy. Constituem a última série escrita por Haydn (a derradeira, opus 77, ficou em dois quartetos apenas).

Nestas seis obras-primas, Haydn incorpora as novidades assimiladas nas temporadas inglesas, mas retorna, no conjunto, ao intimismo dos quartetos do opus 20, compostos em 1772. Fournier afirma que o opus 76 domina sem contestação toda a produção do gênero no século 18.

Além do passeio das quintas no Allegro inicial, elas voltam no "Andante o più tosto allegretto" e aparecem, revertidas, no Menuetto; e no tema principal do Vivace assai o tema principal, "alla ungarese", é de novo um intervalo de quinta descendente.

Beethoven
Quarteto opus 18 no. 4 em dó menor
- Allegro ma non tanto
- Andante scherzoso quasi allegretto
- Menuetto: Allegretto
- Allegro - Prestissimo

Os seis quartetos do opus 18 de Beethoven, dedicados ao príncipe Lobkowitz, são obra de um "aprendiz de feiticeiro do classicismo", no dizer de Fournier. Em 1795, com Haydn vivíssimo (pouco tempo antes lhe dera aulas de música), o jovem Beethoven recebeu a encomenda de um quarteto de cordas do conde Apponyi, aquele mesmo eternizado pela posteridade pelos opus 71 e 74 de Haydn. Tentou, mas não se sentiu seguro para atender à encomenda. Ensaiou com um trio, depois com um quinteto e com uma transcrição para quarteto da sonata para piano opus 14 nº 1.

Os seis foram escritos pouco depois, entre 1798 e 1800, e dedicados a Lobkowitz. O quarteto no. 4, na verdade, foi o último em data a ser posto no papel, e constitui uma espécie de súmula da linguagem para quarteto vigente naquele momento, laboratório onde Beethoven experimentou os usos e costumes do tempo, como o destaque do primeiro violino todo o tempo e as melodias acompanhadas, entre outros. André Boucorechliev fala, de modo um pouco rude, em "recapitulação dos clichês então em vigor". E Joseph Kerman indica que esta é uma das partituras "menos sedutoras" do seu primeiro período criativo. O próprio Beethoven, autocrítico ao extremo, ficou inconformado com o entusiasmo de crítica e público com relação à obra. "É lixo, lixo adequado para este público de porcos!".

O compositor tinha lá seus motivos para ser tão ranzinza, mas a visão de estudiosos contemporâneos fica prejudicada porque eles encaram este quarteto em função de todo o desenvolvimento de Beethoven no gênero – a mania de se conceber encaminhamentos lineares, superações progressivas em direção à perfeição, argumentações teleológicas, enfim, pode atrapalhar o melhor da música, que é simplesmente saboreá-la além das explicações extramusicais. Scherzo, em italiano, quer dizer brincadeira. Que tal aderir à provocação de Beethoven ao chamar seu andante de scherzoso?

Franz Schubert
- Quarteto opus 29 em lá menor D. 804 – Rosamunde
- Allegro ma non troppo
- Andante
- Menuetto: Allegretto
- Allegro moderato

Contemporâneo exato de Beethoven, Schubert concluiu o imponente conjunto de seus quinze quartetos quase que ao mesmo que Beethoven terminou seu opus 135. Ao seu diário, confessou que "minhas produções são fruto de meus conhecimentos musicais e de minha dor". Pura verdade. Apesar das gigantescas sombras criativas de Haydn, Mozart e Beethoven no gênero, o percurso de Schubert é inesperadamente pessoal. E algo profundamente entranhado nele – ainda menino, foi primeiro violino de um quarteto ainda na escola.

Dos 15 quartetos (incluído o "Quartettsatz"), onze foram compostos por um Schubert adolescente, até 1817, para serem tocados em casa, na seguinte formação: os irmãos Ferdinand e Ignaz nos violinos, Franz na viola e o pai no violoncelo. Porque este último não era lá muito bom no instrumento, o menino-compositor facilitava ao máximo as partes de “cello”.

A obras posteriores são obras-primas acabadas, assim como, aliás, o movimento de quarteto isolado, de 1820. São apenas três, mas fabulosamente originais. No no. 14, ele retrabalha a melodia da sua canção "A Morte e a Donzela", tão popular que foi até utilizada como trilha de filme; e neste no. 13, usa no Andante um tema de sua música de balé para "Rosamunde" e, no Allegretto, toma de empréstimo a melodia de um "lied" que compusera em 1819 sobre poema de Schiller intitulado "Os Deuses da Grécia".

O quarteto foi composto em 1824 e estreado em março daquele ano no Musikverein de Viena pelo quarteto que recebeu a dedicatória, liderado por seu amigo Schuppanzigh. O sucesso foi tamanho que justificou a publicação da partitura seis meses depois – a única editada com Schubert vivo.

A característica mais marcante deste quarteto, assim como do seguinte, é a intimidade tão própria do "lied" – gênero no qual era mestre inconteste – que Schubert transpõe para o universo do quarteto.

João Marcos Coelho

15 - 17 de outubro
Quarteto Festetics
cordas com instrumentos originais(Hungria)
István Kertèsz, violino
Erika Petöfi, violino
Peter Ligeti, viola
Rezsö Pertorini, violoncelo