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Uma reluzente caixa de rapé cheia de luíses de ouro
- esta foi a recompensa de Beethoven, por ter composto e dedicado
ao rei Frederico II, da Prússia, suas duas primeiras sonatas
para violoncelo e piano. O cello foi escolhido, claro, porque era
o instrumento preferido de Sua Majestade e o presente se equiparava
aos que eram em geral ofertados aos embaixadores e diplomatas estrangeiros.
Isso tudo aconteceu em 1796, devido ao enorme sucesso de Beethoven
em sua estréia, no ano anterior, em concerto público
em Viena. Berlim foi incluída numa extensa turnê por
várias cidades como Praga, Nuremberg e Dresde.
Mais do que uma troca de gentilezas, as duas primeiras sonatas
são fundamentais na história do gênero, já
que pela primeira vez piano e violoncelo se equiparavam em importância.
Somente no final do século 18 o violoncelo conseguiu sair
do limitado papel de contínuo, e foi Beethoven um dos que
lhe concederam alforria. Não o único, mas certamente
o mais genial.
No conjunto, as cinco sonatas assinadas por Beethoven ao longo
de sua vida, cobrindo todo o seu arco criativo, dos inícios
à maturidade, exibem características inteiramente
diferentes do imponente conjunto das dez para violino e piano, ou
das 32 para piano solo. Atraído pela poderosa voz de tenor
do violoncelo, Beethoven perseguiu incessantemente o "cantabile"
de seu timbre, sobretudo por meio de frases quase sempre amplas
e lentas - ultrapassando o mero objetivo da virtuosidade. Isso explica
por que as duas primeiras sonatas começam com longas introduções.
Atenção para os movimentos finais das duas sonatas:
na primeira, o Allegro é dançante; na segunda, em
rondó, oferece uma inesperada e deliciosa surpresa com um
tema apresentado ao piano e pontilhado por "arpeggios"
no violoncelo.
Doze anos depois, em 1808, Beethoven retornou ao gênero,
e por uma razão objetiva. Contemporânea das sinfonias
nº 4, 5 e 6, ela inaugura o chamado segundo estilo criativo
do compositor, já mais maduro. Afinal, ele ultrapassara graves
crises existenciais como a de Heiligenstadt e já encontrara
um "modus vivendi" em Viena - somente a surdez dava sinais
cada vez mais claros de que era irreversível.
Beethoven, sabe-se, é o mais estudado dos grandes compositores.
Portanto, vale a pena citar alguns especialistas. Como o francês
Claude Rostand, que anota que nesta terceira sonata Beethoven "não
rompe o quadro formal da sonata, como, aliás, já havia
feito em suas obras para piano ou quarteto de cordas". Em vez
disso, ele exercita "uma economia e invenção
próprias das obras da maturidade", conclui Rostand.
O musicólogo norte-americano Lewis Lockwood, vai mais fundo:
"As soluções encontradas na sonata opus 69 para
as questões de escala, sonoridade relativa e equilíbrio
entre os dois instrumentos aparecem como uma realização
tão importante quanto a originalidade e a qualidade das idéias
puramente musicais". Ou seja, naquele momento, e especificamente
com relação à forma sonata violoncelo-piano,
Beethoven pesquisava relações sonoras entre os dois
instrumentos. Sinteticamente, como indica outro especialista, o
italiano Eugenio Albini, "esta sonata é o ideal de todo
violoncelista, a pedra de toque dos artistas consumados, o sonho
dos amadores".
Em julho e agosto de 1815 - portanto, sete anos depois da terceira
sonata - Beethoven compôs suas duas últimas incursões
no gênero, e dedicou-as à condessa Marie von Erdödy,
em cuja casa o compositor viveu por algum tempo. Na partitura, ele
escreveu: "Freie sonate", ou sonata livre. Como escreve
com acerto outro especialista em Beethoven, Maynard Solomon, "constatamos
na sua evolução uma tensão entre o desejo de
não abandonar as formas clássicas recebidas e a necessidade
rebelde de dissolvê-las, ou pelo menos remodelá-las".
Nestas sonatas, afirma ele, "as formas tradicionais tão
tacitamente minadas, abrindo docemente as portas para o romantismo".
De fato, já célebre - as oito sinfonias já
estavam compostas, os quartetos da maturidade também já
haviam sido compostos - Beethoven não se sente preso a nenhuma
amarra a não ser as de sua própria criatividade. É
por que a "Gazeta Musical" as qualifica como "de
gosto muito estranho". Mas, em vez de desqualificá-las,
como Beethoven já era tido e havido como o maior compositor
vivo, o jornal desculpa-se em seguida: "Não conseguimos
gostar destas sonatas: mas estas composições são
quem sabe uma etapa necessária nas criações
de Beethoven, para nos conduzir aonde a mão segura do mestre
nos quiser levar".
É raro, muito raro poder saborear o privilégio de
assistir num só concerto a todas as cinco sonatas em seqüência
e caminhar junto com Beethoven nesta viagem exploratória
das infinitas combinações entre violoncelo e piano.
Por isso, vale a pena a prontidão e o espírito preparado.
A gratificação espiritual, não duvide, é
magnífica.
20
e 21 de agosto
Pieter Wispelwey violoncelo
Paolo Giacometti piano
(Holanda)
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