Ludwig van Beethoven (1770-1827)

Integral das Sonatas para Violoncelo e Piano

Sonata op. 5 nº 1 em fá maior

 

Adagio sostenuto-Allegro
Allegro vivace


Sonata op. 5 nº 2 em sol menor

 

Adagio sostenuto ed espressivo
Allegro molto, più tosto presto
Rondo (Allegro)


Sonata op. 102 nº 2 em ré maior

 

Allegro con brio
Adagio con molto sentimento d'affetto
Allegro-Allegro fugato


Sonata op. 69 em lá maior

 

Allegro ma non tanto
Scherzo: Allegro molto
Adagio cantabile
Allegro vivace


Sonata op. 102 nº 1 em dó maior

 

Andante
Allegro vivace
Adagio
Allegro vivace


Uma reluzente caixa de rapé cheia de luíses de ouro - esta foi a recompensa de Beethoven, por ter composto e dedicado ao rei Frederico II, da Prússia, suas duas primeiras sonatas para violoncelo e piano. O cello foi escolhido, claro, porque era o instrumento preferido de Sua Majestade e o presente se equiparava aos que eram em geral ofertados aos embaixadores e diplomatas estrangeiros. Isso tudo aconteceu em 1796, devido ao enorme sucesso de Beethoven em sua estréia, no ano anterior, em concerto público em Viena. Berlim foi incluída numa extensa turnê por várias cidades como Praga, Nuremberg e Dresde.

Mais do que uma troca de gentilezas, as duas primeiras sonatas são fundamentais na história do gênero, já que pela primeira vez piano e violoncelo se equiparavam em importância. Somente no final do século 18 o violoncelo conseguiu sair do limitado papel de contínuo, e foi Beethoven um dos que lhe concederam alforria. Não o único, mas certamente o mais genial.

No conjunto, as cinco sonatas assinadas por Beethoven ao longo de sua vida, cobrindo todo o seu arco criativo, dos inícios à maturidade, exibem características inteiramente diferentes do imponente conjunto das dez para violino e piano, ou das 32 para piano solo. Atraído pela poderosa voz de tenor do violoncelo, Beethoven perseguiu incessantemente o "cantabile" de seu timbre, sobretudo por meio de frases quase sempre amplas e lentas - ultrapassando o mero objetivo da virtuosidade. Isso explica por que as duas primeiras sonatas começam com longas introduções. Atenção para os movimentos finais das duas sonatas: na primeira, o Allegro é dançante; na segunda, em rondó, oferece uma inesperada e deliciosa surpresa com um tema apresentado ao piano e pontilhado por "arpeggios" no violoncelo.

Doze anos depois, em 1808, Beethoven retornou ao gênero, e por uma razão objetiva. Contemporânea das sinfonias nº 4, 5 e 6, ela inaugura o chamado segundo estilo criativo do compositor, já mais maduro. Afinal, ele ultrapassara graves crises existenciais como a de Heiligenstadt e já encontrara um "modus vivendi" em Viena - somente a surdez dava sinais cada vez mais claros de que era irreversível.

Beethoven, sabe-se, é o mais estudado dos grandes compositores. Portanto, vale a pena citar alguns especialistas. Como o francês Claude Rostand, que anota que nesta terceira sonata Beethoven "não rompe o quadro formal da sonata, como, aliás, já havia feito em suas obras para piano ou quarteto de cordas". Em vez disso, ele exercita "uma economia e invenção próprias das obras da maturidade", conclui Rostand. O musicólogo norte-americano Lewis Lockwood, vai mais fundo: "As soluções encontradas na sonata opus 69 para as questões de escala, sonoridade relativa e equilíbrio entre os dois instrumentos aparecem como uma realização tão importante quanto a originalidade e a qualidade das idéias puramente musicais". Ou seja, naquele momento, e especificamente com relação à forma sonata violoncelo-piano, Beethoven pesquisava relações sonoras entre os dois instrumentos. Sinteticamente, como indica outro especialista, o italiano Eugenio Albini, "esta sonata é o ideal de todo violoncelista, a pedra de toque dos artistas consumados, o sonho dos amadores".

Em julho e agosto de 1815 - portanto, sete anos depois da terceira sonata - Beethoven compôs suas duas últimas incursões no gênero, e dedicou-as à condessa Marie von Erdödy, em cuja casa o compositor viveu por algum tempo. Na partitura, ele escreveu: "Freie sonate", ou sonata livre. Como escreve com acerto outro especialista em Beethoven, Maynard Solomon, "constatamos na sua evolução uma tensão entre o desejo de não abandonar as formas clássicas recebidas e a necessidade rebelde de dissolvê-las, ou pelo menos remodelá-las". Nestas sonatas, afirma ele, "as formas tradicionais tão tacitamente minadas, abrindo docemente as portas para o romantismo".

De fato, já célebre - as oito sinfonias já estavam compostas, os quartetos da maturidade também já haviam sido compostos - Beethoven não se sente preso a nenhuma amarra a não ser as de sua própria criatividade. É por que a "Gazeta Musical" as qualifica como "de gosto muito estranho". Mas, em vez de desqualificá-las, como Beethoven já era tido e havido como o maior compositor vivo, o jornal desculpa-se em seguida: "Não conseguimos gostar destas sonatas: mas estas composições são quem sabe uma etapa necessária nas criações de Beethoven, para nos conduzir aonde a mão segura do mestre nos quiser levar".

É raro, muito raro poder saborear o privilégio de assistir num só concerto a todas as cinco sonatas em seqüência e caminhar junto com Beethoven nesta viagem exploratória das infinitas combinações entre violoncelo e piano. Por isso, vale a pena a prontidão e o espírito preparado. A gratificação espiritual, não duvide, é magnífica.



20 e 21 de agosto
Pieter Wispelwey
violoncelo
Paolo Giacometti
piano (Holanda)