Haydn

Trio Hob. XV. 27 em dó maior

Beethoven

Trio op.1 nº 3 em dó menor

Brahms

Trio op.8 nº 1 em si maior


Nobre precisa: serviçal que toque bem violino e seja capaz de acompanhar sonatas difíceis para teclado". Este anúncio foi publicado pelo "Wiener Zeitung", em 1789, e é um dos exemplos documentais utilizados por Basil Smallman em seu livro "The Piano Trio" para contar os primórdios do gênero da sonata para violino e do trio de cordas com piano, o formato mais popular dentro do universo da música de câmara, atrás somente do quarteto de cordas.

Embora se possa situar cronologicamente o primeiro trio de piano com cordas no ano de 1786 (o K. 496, de Mozart), é importante observar que o gênero representa o clímax de um extenso processo de desenvolvimento de músicas compostas para trio, agrupadas sob a qualificação comum de sonata acompanhada.

O anúncio de jornal, entretanto, bem pode servir de epígrafe para o ótimo e surpreendente capítulo que Charles Rosen dedica, em seu extraordinário livro "O Estilo Clássico", ao trio com piano, com o objetivo manifesto de chamar a atenção para as obras de Haydn neste domínio.

Sabe-se, Haydn plantou as bases do gênero quarteto de cordas ao transformá-lo de obras para violino solo acompanhado por instrumentos, mas não teve meios para dar igual autonomia ao trio com piano, do qual foi o primeiro grande criador, ao lado de Mozart e Beethoven. É interessante como Haydn, tendo escrito todos os seus trios no final de sua longa vida, já tinha conhecimento dos trios de Mozart, onde o violoncelo tinha maior autonomia; mas, em seus trios, a concepção é a de obras para piano solo concertante, com acompanhamento de violino e violoncelo. Nessa altura, Rosen anota um detalhe que clareia toda a história do início do gênero trio com piano. É natural que haja a predominância do piano – "único instrumento simultaneamente capaz de complexidade polifônica e inflexões dinâmicas" – nessas obras.

Mas os pianos disponíveis no final do século 18 – o instrumento acabara de nascer sob as mãos de Cristofori – eram limitados do ponto de vista técnico. Assim, raciocina Rosen, ele mesmo notável pianista, "os graves soavam raquíticos e fracos, as notas sustentadas praticamente irrealizáveis". E como exemplo cita as oitavas descendentes no Allegro inicial, que devem soar muito mais como "glissandi" do que como exercícios de virtuosidade. Por isso, "com o violoncelo que reforça o baixo e o violino que se encarrega das melodias que exigem o máximo de potência lírica, o trio com piano representava a solução ideal dessas dificuldades mecânicas. A imaginação haydniana podia correr solta, e nada impedia mais o intérprete de se entregar a efeitos de virtuosidade impossíveis de serem realizados somente pelo piano; o violino e o violoncelo foram, para Haydn, em seus trios, o que a orquestra tinha sido para Mozart em seus concertos".

O espírito era, como titulou Boccherini um grupo de peças do gênero, de uma "conversazione a tre". Ou seja, os instrumentos completavam-se naturalmente. O piano toca tudo que lhe convém, ousando a virtuosidade inclusive; o violino se encarrega das longas notas sustentadas; e o violoncelo, ao duplicar os baixos do piano para ressaltá-los, concede a amplitude sonora que impulsiona o discurso musical.

A rápida evolução dos instrumentos durante as primeiras décadas do século 19 – sobretudo do piano, como já se percebe no trio de Beethoven – reforça ainda mais o gênero, consolidando-o como o laboratório privilegiado da prática do diálogo musical. Dá vontade de concordar com Rosen quando ele afirma que criadores como Haydn, Mozart e Beethoven escreviam para instrumentos que ainda não existiam, ou seja, ainda não eram capazes de reproduzir a intenção sonora desses compositores. É o caso dos três trios opus 1 assinados por Beethoven, onde se percebe claramente que, durante o ano de 1793, quando este foi aluno de Haydn, ambos devem ter estudado em detalhe os trios com piano. Há muitos pontos e soluções comuns. Entretanto, o no. 3 do opus 1, que ouviremos hoje, já se distancia claramente do modelo haydniano. Por isso mesmo, em sua estréia, o professor Haydn criticou justamente o trio no. 3 – e este pode ter sido um dos motivos que levaram Beethoven a afastar-se de Haydn (o aluno considerou o mestre enciumado das qualidades de sua obra, e ostensivamente passou a considerá-lo o melhor daqueles trios de juventude).

O trio opus 8, de Brahms, também nasceu sob o manto de uma relação semelhante. No caso, Schumann, que anunciara ao mundo poucos meses antes, em 1853, que Brahms não era mais uma revelação nem um compositor promissor, mas "já está pronto para salvar a grande música alemã", deixou o jovem hamburguês de 20 anos embasbacado, com uma enorme responsabilidade com relação a suas criações seguintes. E a seguinte foi justamente o "Trio opus 8", sua primeira obra de câmara publicada. Clara, a pianista, mulher de Schumann e alma-gêmea artística de Brahms por toda a vida, anotou em seu diário, logo após a estréia do trio, que "gostaria de outro primeiro movimento, este não me satisfaz, embora o início seja esplêndido".

Brahms, que sempre praticou uma rigorosíssima autocrítica, também não se convenceu. E, 35 anos depois, retomou a partitura e fez uma profunda revisão, diminuindo sua duração em aproximadamente um terço: manteve o scherzo praticamente intacto (só mexeu na coda); mas foi radical nos outros movimentos, estruturando melhor a forma-sonata e eliminando alguns excessos românticos. Como o compositor manteve a numeração – opus 8 --, o trio, que hoje é interpretado na versão revista por um criador em plena maturidade, indica, por sua numeração, uma obra de juventude. Para um incauto, pode até comprovar a tese radical de Schumann, de que Brahms já surgiu pronto. Por outro lado, é difícil lembrar-se de outro exemplo de compositor que manteve tamanha coerência criativa e estilística que lhe foi possível revisar uma obra de juventude sem reescrevê-la e fazer dela uma nova peça.

João Marcos Coelho

04 de novembro
Régis Pasquier, violino
Emmanuel Strosser, piano
Roberto Ring, violoncelo