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Schubert só compôs duas obras para a formação piano-violino-violoncelo.
E ambas são unanimemente consideradas autênticas obras-primas. É
notável o modo como ele utiliza os dois instrumentos de cordas em
seus melhores registros - ou seja, na região onde rendem mais -
combinando-os de mil e uma maneiras. O piano, por outro lado, nunca
soa pesado; fornece suporte harmônico e embeleza a massa sonora;
paira ora acima, ora abaixo e até mesmo entre o violino e o violoncelo.
Leveza aqui não significa limitações: Schubert explora toda a extensão
do teclado, e aí está o milagre de integrar timbres tão distintos
quanto os do piano com as cordas.
Escrito no verão de 1827 com endereço certo - os amigos músicos
Carl Maria Bocklet (piano), Schuppanzigh (violino) e Linke (violoncelo)
- o trio foi executado por estes músicos pela primeira vez em audição
privada em janeiro de 1828, na casa de Josef von Spaun. Este último,
amigo de colégio do compositor desde a adolescência, era diretor
da loteria de Viena e foi em sua casa que aconteceram as célebres
schubertíades, noitadas regadas a poesia e música onde o compositor
de "Winterreise" sempre foi figura central.
Robert Schumann, o dublê de compositor e crítico musical romântico
por excelência, tinha preferência acentuada pelos trios de piano
com cordas, pois além de saudar os trios de Mendelssohn também detectou
com acerto a genialidade dos dois trios de Schubert. Especificamente
a propósito do trio que ouviremos hoje, em si bemol maior, Schumann
qualificou-o como antídoto por excelência contra a atávica "miséria
da condição humana". E explicou: "Basta dar uma olhada na partitura
deste trio para esquecermos a miséria da condição humana e o mundo
voltar a brilhar com renovado esplendor." Para comentá-lo - não
esqueçamos que Schumann escreve tais palavras em 1836, quando já
se tinham passado oito anos da morte de Schubert e só então era
publicado o trio opus 99 - o crítico recorre ao imaginário romântico,
já a partir da comparação com o trio opus 100, publicado em 1827:
"Um outro trio de Schubert passou como um meteoro no céu da música
dez anos atrás.(...) Mas eles diferem essencialmente. O primeiro
movimento, que no primeiro trio era de profunda revolta e ardente
nostalgia, neste é muito gracioso, confiante, virginal; o Adagio,
que era angustiante, desfaz-se no opus 99 num sonho pleno de beatitudes
e genuíno sentimento. Os scherzi se parecem (...) Não consigo escolher
entre os dois finais. O trio em mi bemol é viril, ativo e dramático;
o trio em si bemol é sua antípoda: passivo, feminino, lírico".
25 e 26 de junho
Jerusalem Trio
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