Franz Schubert (1797-1828)
Trio nº 1 em si bemol maior, op. 99, D. 898

 

Allegro moderato
Andante un poco mosso
Scherzo: Allegro
Allegro vivace


Schubert só compôs duas obras para a formação piano-violino-violoncelo. E ambas são unanimemente consideradas autênticas obras-primas. É notável o modo como ele utiliza os dois instrumentos de cordas em seus melhores registros - ou seja, na região onde rendem mais - combinando-os de mil e uma maneiras. O piano, por outro lado, nunca soa pesado; fornece suporte harmônico e embeleza a massa sonora; paira ora acima, ora abaixo e até mesmo entre o violino e o violoncelo. Leveza aqui não significa limitações: Schubert explora toda a extensão do teclado, e aí está o milagre de integrar timbres tão distintos quanto os do piano com as cordas.

Escrito no verão de 1827 com endereço certo - os amigos músicos Carl Maria Bocklet (piano), Schuppanzigh (violino) e Linke (violoncelo) - o trio foi executado por estes músicos pela primeira vez em audição privada em janeiro de 1828, na casa de Josef von Spaun. Este último, amigo de colégio do compositor desde a adolescência, era diretor da loteria de Viena e foi em sua casa que aconteceram as célebres schubertíades, noitadas regadas a poesia e música onde o compositor de "Winterreise" sempre foi figura central.

Robert Schumann, o dublê de compositor e crítico musical romântico por excelência, tinha preferência acentuada pelos trios de piano com cordas, pois além de saudar os trios de Mendelssohn também detectou com acerto a genialidade dos dois trios de Schubert. Especificamente a propósito do trio que ouviremos hoje, em si bemol maior, Schumann qualificou-o como antídoto por excelência contra a atávica "miséria da condição humana". E explicou: "Basta dar uma olhada na partitura deste trio para esquecermos a miséria da condição humana e o mundo voltar a brilhar com renovado esplendor." Para comentá-lo - não esqueçamos que Schumann escreve tais palavras em 1836, quando já se tinham passado oito anos da morte de Schubert e só então era publicado o trio opus 99 - o crítico recorre ao imaginário romântico, já a partir da comparação com o trio opus 100, publicado em 1827: "Um outro trio de Schubert passou como um meteoro no céu da música dez anos atrás.(...) Mas eles diferem essencialmente. O primeiro movimento, que no primeiro trio era de profunda revolta e ardente nostalgia, neste é muito gracioso, confiante, virginal; o Adagio, que era angustiante, desfaz-se no opus 99 num sonho pleno de beatitudes e genuíno sentimento. Os scherzi se parecem (...) Não consigo escolher entre os dois finais. O trio em mi bemol é viril, ativo e dramático; o trio em si bemol é sua antípoda: passivo, feminino, lírico".

25 e 26 de junho
Jerusalem Trio